Ao ler, ver e ouvir palavras sentidas como homenagem ao seus progenitores. Apesar não ligar aos "dias de..." tenho sempre aproveitado as ocasiões para me expressar sobre o que penso em relação às situações ou pessoas. Hoje como é dia do pai aqui deixo uma carta ao meu pai com tudo aquilo que lhe gostaria de dizer, mas que não consigo, ou não quero, pensamentos e recordações que guardo para mim e que agora partilho aqui.
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A imagem não tem nada a ver com o que se segue, mas não encontrei melhor. |
"Pai...
Neste dia e ao ouvir tantas coisas bonitas não consegui deixar de reflectir sobre o papel que tiveste e tens na minha vida.
A verdade é que eu não consigo amar-te nem dizer sequer que gosto de ti.
Não erras-te como pai, ou talvez tenhas errado, erras-te como homem, marido, pessoa. E fizeste-o muitas vezes.
Pensas que tudo é a tua maneira, que fazes tudo certo, que dizes tudo bem e que és a pessoa mais correcta do mundo, zangaste e ralhas quando és confrontado com a verdade.
Tu não imaginas, nem sequer deves pensar nisso...
Mas eu penso, recordo, essas terríveis lembranças que me deixaste. Para ti eu era nova demais para perceber as coisas, mas eu percebi, e continuo a perceber, e a cada dia que passa essas recordações me magoam mais, me assombram mais as minhas noites. É segredo, um segredo terrível, lembranças horríveis e foram coisas vistas que assombraram a minha infância e me fizeram crescer e ter tanto medo de me entregar, tanto medo da palavra e do ato.
À parte disso sempre foste um pai pouco presente pois era rara a vez acompanhavas a família a algum lado, sempre fizeste a tua vida. Foste um pai caseiro, quero dizer com isto que na minha infância, que só tiveste presente na vida em casa, não me acompanhaste a qualquer festa da escola, ou aos teatros e musicais que fazia em criança. Mas nada que me faça infeliz pois foi hábito e eu estou habituada.
Digo tudo isto no passado em que eras egoísta, egocêntrico, individualista. "Eu sou eu e mais ninguém."
No presente e depois de uma doença que tu causaste e deixaste andar mais de vinte anos, que quase te matou por causa da teimosia e orgulho, mudaste.
Chorei no momento da tua maior fragilidade porque tenho algum sentimento por ti e essencialmente porque sem ti a família desequilibra-se, perde o rumo mas ganha liberdade e vida.
Mudaste sim, tornaste mais presente apesar de ser tempo de te afastares, pois quando o fizer de vez, muito brevemente, não vais ter outro remédio.
Tornaste-te mais alegre, permitiu-me a mim conhecer-te melhor, conhecer um pai diferente mas infelizmente é tarde demais.
Os teus erros tiveram e estão a ter consequências, nas tuas proibições e obrigações, mas digo-te, felizmente nem todos os homens são como tu e por tudo o que vi na infância sei escolher e desviar-me de pessoas como tu, para que não me façam sofrer e para que os meus futuros filhos não presenciem o que presenciei e não sofram como sofri. A tua proibição não me deixa viver uma vida normal, faz com que veja sempre o pior de ti.
Gostaria que merecesses este dia, mas não o mereces. Só te peço uma coisa...
Deixa-me ser feliz.
Da tua filha ...
E pronto está aqui mais uma parte de mim. A minha pior parte...